
A intolerância contra homossexuais voltou a estampar as páginas dos jornais. Em São João da Boa Vista (SP), pai e filho foram espancados por um grupo enquanto se abraçavam em um feira agropecuária que acontecia na cidade. O pai teve parte da orelha decepada. Membros de grupos que defendem a diversidade sexual em Campinas acreditam que a homofobia cresce no momento em que as discussões por direitos homossexuais ganham destaque. Para o diretor da escola jovem LGBT de Campinas, Deco Ribeiro, as agressões comprometem toda a sociedade e dão razão aos pedidos atuais da comunidade gay, como leis que reprimem a homofobia. A reportagem ainda traçou o mapa da homofobia na RMC, que contabiliza, desde 2005, seis assassinatos e outras centenas de denúncias de violência. Um ano depois de ser brutalemente espancado por um segurança na Praça Bento Quirino, o jovem Jonathan Prado, de 20 anos, diz que ainda teme agressões.
Para o coordenador de políticas públicas para a diversidade sexual de Campinas, vinculada à Secretaria de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, Paulo Reis dos Santos, a questão (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais) tem ganhado a mídia porque o tema tem sido mais debatido. “Tivemos a polêmica do kit anti-homofobia, que acabou proibido nas escolas, tivemos a discussão da união homoafetiva, reconhecida pelo Superior Tribunal Federal (STF) e recenemente a parada gay. Toda essa exposição gera uma reação dos conservadores” , opinou. Apesar disso, Reis reconhece o perigo que os gays ainda sofrem. “Temos a praça Bento Quirino onde essa população pode se socializar com outros iguais e se reconhecer ali, mas há relatos de agressão sofridas por gays naquele local” , lamentou.
A assistente social e coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social LGBT (Creas) de Campinas, Valdirene dos Santos, diz que “o sonho de todos os gays era que não existissem leis que pedem respeito às pessoas” Segundo a coordenadora do Centro, a população de homossexual que registra queixas no Creas está mais assustada por conta das ações violentas homofóbicas. “As travestis são as que ficam mais inseguras pois são mais vulneráveis a agressões” , disse. Para o coordenador de direitos humanos do Grupo Identidade – Grupo de luta pela diversidade sexual, Paulo Mariante, a mentalidade da sociedade deve começar a mudar a partir da educação. “A educação não faz ninguém ser hétero ou gay, o que é preciso é que as pessoas aprendam desde cedo a valorizar as diferenças” , disse, defendendo o kit anti-homofobia. No entanto, segundo Mariante, as autoridades devem mostrar enfrentamento a essa questão. “Campanhas publicitárias, por exemplo, não vão resolver, mas são mensagens importantes para combater a intolerância” , acredita. Ele ainda defendeu a punição com rigor dos agressores. “Não pedimos penas mais graves, apenas pena aplicada para se tornar exemplo a outros” .
O técnico em enfermagem e cabeleireiro Emerson Maurílio Chrystino, de 46 anos, já sofreu violência física na rua. “Um vizinho do bairro começou me xingando sem motivo com palavras vulgares e depois partiu para cima com uma garrafa de vidro” , relatou o homem, que diz que a violência verbal é frequente nas ruas. “Infelizmente vivemos em um país de terceiro mundo, com pessoas sem educação” , afirmou. Chrystino, que hoje milita na causa contra a homofobia é enfático. “Essa violência tem que acabar. Somos pessoas dignas, que trabalham, que têm família. Homofobia é crime, mas ainda não há leis que punam os agressores, e é por isso que lutamos” .
Na Escola Jovem LGBT de Campinas, primeira no gênero e que já foi alvo de três ataques de grupos homofóbicos, o diretor Deco Ribeiro relata que os alunos vivem apreensivos, mas pondera. “Isso não gera pânico e pensamentos de que vão ser agredidos a qualquer momento na rua, até porque o homossexual, muitas vezes, é agredido dentro da própria casa”. Dos 30 alunos que estudam na escola, Ribeiro diz que muitos já sofreram violência. Ribeiro acredita que o aumento da homofobia serve para dar razão a tudo o que a comunidade gay reivindica. “É perceptível que (a homofobia) é um problema da sociedade e afeta a todos” , disse, citando o caso de São João da Boa Vista e o registrado em novembro passado na Avenida Paulista, quando um hétero foi agredido após ser confundido com um gay. “Um homem vai ter que provar 24 horas por dia que é homem para não ser alvo e a mulher com menos feminilidade, por exemplo, também poderá ser vítima de homofóbicos porque foge do padrão imposto pela sociedade?. Isso é absurdo” . Para ele a visão de combate a homofobia deve passar pelo conhecimento do universo gay pela sociedade “entendendo que todos são seres humanos”.
A questão da homofobia também será debatida na 5ª Conferência de políticas públicas LGBT de Campinas, que acontece em setembro. O objetivo do evento, que antecede o encontro nacional, é avaliar os resultados das outras conferências realizadas em Campinas nos últimos quatro anos e produzir um plano municipal de política contra a homofobia. O evento terá participação das secretarias de Saúde, Esporte, Cultura, Educação e Cidadania.
Mapa da homofobia
O Correio Popular traçou o mapa da homofobia em Campinas e região. Os dados são do Creas LGBT único do gênero na região e corresponde a denúncias realizadas no período de 2005 a 2010. Todas as denúncias de violência foram feitas ao serviço telefônico do Creas. No período, foram 838 notificações. A população de homossexuais do sexo masculino é a que mais sofreu ações preconceituosas, seguida pelas travestis e lésbicas. Agressões verbais e físicas são as queixas mais frequentes e totalizaram 623. Seis assassinatos foram registrados. As agressões, na maioria das vezes, aconteceram nas ruas e foram cometidas por desconhecidos. Policiais Militares e Guardas Municipais também foram acusados de homofobia por 105 pessoas. Destes, 19 casos aconteceram dentro de delegacias. Homossexuais ainda denunciaram agressões no local trabalho, onde foram ofendidos por chefes e colegas. Apesar do cenário ser alarmante, a assistente social e coordenadora do Creas LGBT de Campinas acredita que os casos de violência contra gays são maiores. Valdirene ainda informou que vítimas ligam relatando casos de cárcere privado, de pais que não deixa filhos sairem de casa por causa da orientação sexual, além de casos de professores contra alunos e seguranças de estabelecimentos particulares contra clientes. “Muito mais casos de violência contra homossexuais são cometidos, mas as pessoas ainda não se apropriaram do direito de denunciar” , disse. As ocorrências do primeiro semestre de 2011 não foram divulgados, o Creas informou apenas os números de abril. Foram 44 casos de agressão física contra gays em Campinas e região. Destes, 19 no local de trabalho.
Medo
O auxiliar administrativo Jonathan Prado, de 20 anos, voltou esta semana para a Praça Bento Quirino, em Campinas, onde há um ano foi espancado por um segurança de um estabelecimento do local, um dos principais pontos GLS da cidade. O jovem, que foi atingido por uma barra de ferro na cabeça e levou 32 pontos, disse que ainda teme ações de grupos homofóbicos. “Ainda sofremos muita perseguição” , afirmou Prado. “O nosso movimento está muito fortalecido, mas ao mesmo tempo os casos de agressão tendem a aumentar” , acredita. Prado, que se tornou um dos símbolos pela luta homossexual de Campinas e recebeu apoio de grupos anti-homofobia de todo o País, inclusive da então candidata ao Senado, Marta Suplicy, espera mudanças. “Não preciso que me aceitem, apenas que me respeitem” , defendeu.
Mapa da Homofobia em Campinas e RMC (2005 – 2010)*
838 denúncias de violência contra a população LGBT
368 casos de agressão verbal
255 casos de agressão física
6 assassinatos
105 casos onde os agressores eram policiais ou guardas municipais
19 deles dentro de delegacias
2011 (Dados do mês de abril)
44 casos de agressão
19 no local de trabalho
9 na escola ou faculdade
16 cometidos por vizinhos
* Fonte: Creas LGBT
Conquista
Uma das recentes conquistas dos homossexuais foi o reconhecimento da união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O estado de São Paulo terá o terceiro casamento gay este mês. A juíza Fernanda Yumi Furukawa Hata, da Comarca de Bragança Paulista, autorizou nesta semana um pedido de um casal da cidade. Em Piracicaba um casal também entrou com um pedido de casamento, mas o caso irá para a Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo. Ao Correio, o juiz Mauro Antonini, do Fórum de Piracicaba, informou que autorizou a união, mas o promotor de justiça local emitiu parecer contrário. Por isso, o caso foi parar na Corregedoria. Antonini explicou que negativas semelhantes devem acontecer em todo o País, uma vez que há dubiedade na decisão do STF. “Alguns promotores entendem que a união homoafetiva não é casamento” . Desde a decisão do STF, em maio, já foram autorizados cinco casamentos no Brasil, três no estado de São Paulo, um no Rio e outro em Santa Catarina.
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